Proibição das bets: o que muda para parques, eventos e festivais

Com a proibição das apostas de quota fixa no Brasil, o mercado de entretenimento ganha uma nova questão: o que acontecerá com o dinheiro e o tempo que os consumidores destinavam às bets? Por Marina Agibert
O mercado brasileiro de parques, atrações turísticas e entretenimento está em um ciclo de expansão. Em 2025, o setor recebeu 143 milhões de visitantes e movimentou R$ 9,5 bilhões, segundo o Panorama Setorial de Parques e Atrações Turísticas, da Adibra e do Sindepat. Para os próximos anos, estão previstos R$ 11,5 bilhões em investimentos. As bets podem ser consideradas concorrentes desse mercado?
Até pouco tempo atrás, as apostas online apareciam como uma concorrência menos óbvia, mas relevante, na disputa pelo orçamento destinado ao lazer. Não necessariamente porque alguém deixaria de ir a um parque para apostar. O ponto é que diferentes formas de entretenimento disputam recursos limitados: dinheiro, tempo e atenção.
O que muda com a MP 1.394
Agora, o cenário mudou.
A Medida Provisória 1.394, publicada em 25 de setembro, proibiu no Brasil a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa. A medida também veda ações de comunicação, marketing e patrocínio relacionadas às bets. Diário Oficial da União
E os eventos, shows e festivais?
Para eventos, shows e festivais, a proibição tem um efeito que vai além do comportamento do consumidor. Nos últimos anos, as bets estiveram entre as marcas mais presentes no patrocínio do setor, em palcos, arenas e grandes festivais. Com o veto ao patrocínio, os organizadores precisarão encontrar outras fontes de receita. Isso pode abrir espaço para marcas de outros segmentos e exigir modelos comerciais mais diversificados.
Para onde vai o dinheiro que antes ia para as bets?
Essa mudança levanta uma pergunta que interessa não apenas ao mercado de apostas, mas a toda a indústria do entretenimento: para onde vai o dinheiro que antes era destinado às bets?
A resposta não é necessariamente parques, viagens, restaurantes ou qualquer outra forma de lazer. O consumidor pode simplesmente deixar de gastar, direcionar esse dinheiro para outras necessidades ou reorganizar suas prioridades financeiras.
Por isso, seria equivocado tratar a proibição como uma oportunidade automática de captura de público ou de receita.
Mas existe, sim, uma oportunidade de observar o comportamento.
Durante anos, as bets foram inseridas no cotidiano do consumidor como uma forma de entretenimento digital de baixo atrito. Estavam disponíveis no celular, a qualquer hora, sem deslocamento nem planejamento.
Uma experiência presencial funciona de outra maneira.
Para visitar um parque, viajar ou ir a um evento, a jornada é muito maior: escolha, planejamento, deslocamento, ingresso e, muitas vezes, alimentação e hospedagem.
Isso torna ainda mais importante compreender por que o consumidor decide sair de casa, gastar seu dinheiro e dedicar algumas horas do seu tempo a uma determinada experiência.
O fim das bets não significa que esse dinheiro vai migrar para o entretenimento presencial. Mas pode abrir uma nova janela para entender como o brasileiro distribui seu orçamento de lazer e quais experiências considera valiosas o bastante para merecer esse investimento.
A pergunta que parques e atrações deveriam fazer
Para parques, atrações, eventos e festivais, talvez a pergunta não deva ser "quanto desse dinheiro podemos capturar?", mas sim "o que faz alguém escolher uma experiência em vez de outra?"
A resposta passa por preço e conveniência. Passa também por experiência, emoção, relacionamento, percepção de valor e vontade de voltar.
Em um mercado cada vez mais disputado, conhecer o consumidor deixa de ser apenas uma ferramenta de marketing e se torna uma questão estratégica.
A proibição das bets encerra um capítulo desse mercado. Mas abre uma discussão muito maior sobre comportamento de consumo e sobre como as pessoas escolhem o que fazer com seu dinheiro e seu tempo livre.
Talvez seja essa a pergunta que o setor de entretenimento deveria começar a fazer agora: quando o consumidor tem uma nova parcela do orçamento disponível, o que fará com que ele escolha a sua experiência?